Experiência é lançar-se ao risco.

     onde vivem

     Penso nas crianças que nos afastam por algum motivo. Aquelas que não aceitam ser tocadas, que correm quando você se aproxima. Que dizem com o corpo, com o gesto, que nos impõe barreiras e pedem uma presença persistente de escuta, de afeto que transpõe distâncias e acalma o medo, pois o aceita.

     Como educadora, sou desafiada o tempo todo a ver e estar nesse invisível de relações que acontecem no espaço de aprendizagem. A tocá-lo e dançar com ele, e assim abraçar a história que eu sei e a que eu não sei dessa infância, desse corpo de 5, de 9 anos de mundo.

     Corpo que pensa, fala, conhece com as mãos, a textura do mundo. Esse corpo que precisa da areia molhada com água para dizer e escrever numa linguagem que se lê com olhos que seguem a lógica dos sentidos.

     Penso em quanto nós adultos somos convidados pelo mundo a não sentir, a esquecer do que habita o invisível, a desconsiderar do que é feito o silêncio, a ocultar e calar sonhos, a esquecer possíveis, a fechar o corpo, pois afirmar é mais seguro do que perguntar e se abrir ao novo.

     Um mundo que nos convida a fechar portas buscando o concreto das certezas ao invés de ouvir o sutil do desconhecido, o que eu não sei, o que me escapa.

     E cada vez mais a criança nos convida a ver um mundo de ponta cabeça, onde ela pergunta, testa, experimenta, nos mostra outro tempo, nos faz parar para olhar o que ela vê.

     Nesse momento, meu papel de educadora sussurra ao meu ouvido a delicadeza que é acompanhar e organizar as descobertas, de adentrar portas e abrir janelas, conhecer que se dá na convivência que busca o critério de sempre sustentar a vida, o encanto e o mistério, esse invisível de que é feito a substância que sonha, que anseia  e descobre no brincar com os colegas o encontro, o sentido de viver nessa comunidade escolar.

     Experiência é colocar-se em risco. Nessa compreensão vejo o papel do educador como aquele que navega através de tempestades, de dias ensolarados, enfrentando ventos fortes, ondas gigantes, conhecendo animais marinhos e que preserva a vida guiado sempre pelas estrelas aberto ao risco.

     Li Scobár.

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